SistematIA › Guias
Como avaliar o risco de viés na revisão sistemática
O risco de viés mede o quanto o desenho e a condução de um estudo podem ter distorcido o resultado que ele relata. É uma avaliação exigida pelo PRISMA 2020, feita estudo por estudo, com um instrumento escolhido pelo desenho: RoB 2 para ensaios randomizados, ROBINS-I para estudos não randomizados de intervenção, ou um checklist do JBI para outros desenhos. O julgamento entra na síntese e pesa na força da conclusão.
Por que essa etapa existe
Dois estudos podem medir o mesmo desfecho e chegar a números parecidos por razões diferentes: um com desenho sólido, outro com uma falha que empurrou o resultado numa direção. Sem avaliar o risco de viés, a revisão trata os dois como equivalentes. Com ela, o leitor sabe quanto peso dar a cada achado, e a meta-análise, quando existe, pode ser refeita só com os estudos de baixo risco, numa análise de sensibilidade.
Qual instrumento usar
| Instrumento | Usa em | Domínios avaliados |
|---|---|---|
| RoB 2 | ensaios clínicos randomizados | processo de randomização, desvios da intervenção, dados de desfecho ausentes, mensuração do desfecho, seleção do resultado relatado |
| ROBINS-I | estudos não randomizados de intervenção (coorte, antes-depois, séries temporais) | confusão, seleção dos participantes, classificação da intervenção, desvios da intervenção pretendida, dados ausentes, mensuração do desfecho, seleção do resultado relatado |
| JBI (por desenho) | estudos observacionais, transversais, relatos de caso, revisões | checklists próprios por tipo de estudo, focados em validade interna e clareza metodológica |
| CASP | estudos qualitativos | checklists por desenho qualitativo, com foco em rigor, credibilidade e relevância dos achados |
Usar o instrumento errado para o desenho do estudo invalida a avaliação: o RoB 2 pressupõe randomização, e aplicá-lo a um estudo observacional produz um julgamento sem sentido, porque os domínios que ele checa não existem nesse desenho.
Como aplicar
- Dois revisores independentes julgam cada estudo, domínio por domínio, com um terceiro para resolver discordâncias.
- Cada domínio recebe um julgamento: baixo risco, algumas preocupações (ou risco moderado, no ROBINS-I) ou alto risco, com a justificativa registrada.
- O julgamento geral do estudo segue o pior domínio, não uma média: um único domínio de alto risco compromete o estudo inteiro.
- O resultado entra no relatório num gráfico resumo por estudo e por domínio, e é discutido no texto, não só ilustrado.
O erro que mais aparece em parecer: aplicar o instrumento e nunca usar o resultado depois. O risco de viés precisa aparecer na discussão, ponderando a confiança nos achados, e pode justificar uma análise de sensibilidade na meta-análise, quando ela existe.
O que a banca costuma cobrar
- A justificativa do instrumento escolhido para cada desenho de estudo incluído.
- O número de revisores e como as discordâncias foram resolvidas.
- O gráfico resumo, por estudo e por domínio.
- A discussão do risco de viés na interpretação dos achados, não só a figura.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre RoB 2 e ROBINS-I?
O RoB 2 avalia ensaios clínicos randomizados, em cinco domínios que partem da randomização. O ROBINS-I avalia estudos não randomizados de intervenção, como coortes e antes-depois, em sete domínios que incluem o viés de confusão, ausente no RoB 2 porque a randomização o neutraliza. Usar o instrumento errado para o desenho do estudo invalida a avaliação.
Risco de viés é obrigatório em toda revisão?
É obrigatório na revisão sistemática, exigido pelo item 11 do PRISMA 2020. Na revisão de escopo (PRISMA-ScR) é opcional, porque o objetivo é mapear o que existe, não hierarquizar a força da evidência. Na revisão integrativa, entra como avaliação da qualidade metodológica, associada ao nível de evidência de cada estudo.
Qual instrumento usar para estudos qualitativos?
O mais usado é o CASP (Critical Appraisal Skills Programme), com checklists específicos por desenho qualitativo. O JBI também tem instrumentos próprios para estudos qualitativos, dentro do seu conjunto de ferramentas de avaliação crítica.
O julgamento pode ser feito por um revisor só?
O padrão recomendado é dois revisores independentes, com um terceiro para resolver discordâncias. Quando a avaliação é feita por um único revisor, isso precisa ser declarado como limitação no relatório.
Do risco de viés ao manuscrito, sem sair da revisão
O SistematIA conduz a triagem, a extração, a Tabela 1, o fluxograma e o manuscrito redigido da sua revisão sistemática. A avaliação do risco de viés é sua e do seu instrumento de escolha; o app organiza o que já está documentado e leva o julgamento para o relatório final, com o restante do PRISMA 2020.
Conhecer o SistematIA